Bagada escrito em 13 de Janeiro de 2026
Sustentados por gordura de superávits passados ou por operações de crédito, os investimentos dos governos estaduais aceleraram no decorrer do segundo semestre de 2025 e devem avançar mais em 2026, ano de eleições, segundo especialistas e representantes de Estados ouvidos pelo Valor Econômico.
Apesar do movimento nacional, o Rio Grande do Norte aparece na última colocação do ranking de investimentos, com R$ 0,37 bilhão aplicado entre janeiro e outubro de 2025 e queda real de 40,8% em relação ao mesmo período de 2024, conforme dados da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) compilados pela Aequus.
No agregado dos 26 Estados e Distrito Federal (DF), os investimentos atingiram R$ 67,7 bilhões de janeiro a outubro de 2025, com alta real, já descontada a inflação, de 5,5% ante igual período de 2024. O valor é quase o dobro dos R$ 34,6 bilhões investidos em 2021, que também foi, assim como 2025, o terceiro ano do mandato dos governadores de então.
Os investimentos em 2025 subiram em 16 Estados e no Distrito Federal. Em 13 deles o aumento foi superior a 10%, sendo que a taxa superou 30% reais em nove desses entes: Goiás, Rio Grande do Sul, Amapá, Sergipe, Paraná, Maranhão, Acre, Paraíba e Pernambuco.
As inversões financeiras, que alguns Estados computam entre os investimentos, também avançaram. Alcançaram R$ 14,4 bilhões de janeiro a outubro de 2025 e cresceram 34,8% reais ante iguais meses de 2024.
Nem todas as inversões financeiras são investimentos, mas elas podem incluir investimentos feitos pelo Estado de forma indireta, por fundos ou empresas ligadas ao governo, por exemplo. Também podem incluir compra de ativos já existentes, embora esse tipo de operação não represente expansão da capacidade produtiva.
Comparada aos investimentos e às inversões financeiras, a despesa corrente dos Estados cresceu a uma taxa menor, de 4% reais, mas de forma mais acelerada que as receitas correntes, que subiram 2,1%, sempre de janeiro a outubro de 2025 ante igual período do ano anterior.
Os dados foram extraídos dos relatórios resumidos de execução orçamentária divulgados pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN) e elaborados pela Aequus. Foram considerados gastos liquidados e despesas realizadas. Para comparação em termos reais, todos os valores foram atualizados pelo IPCA até outubro de 2025.
“O investimento deu uma acelerada e os números fechados de 2025 deverão mostrar um nível mais alto que o de 2024”, estima Alberto Borges, economista e sócio da Aequus. Ele lembra que de janeiro a junho de 2025 os investimentos agregados dos Estados e Distrito Federal apresentavam queda real de 4,4%, mas a variação negativa foi revertida nos meses seguintes.
Entre outros fatores, diz, a expectativa baseia-se na evolução das operações de crédito, fonte de financiamento importante para os investimentos em muitos Estados. Essas receitas tiveram alta de 34,4% de janeiro a outubro de 2025 contra iguais meses de 2024. Em igual período, a arrecadação própria dos Estados cresceu a ritmo bem menor, de 2%.
A arrecadação própria do agregado dos Estados alcançou R$ 667,28 bilhões de janeiro a outubro de 2025, montante muito maior que os R$ 23,63 bilhões em receitas de operação de crédito. Essas últimas, porém, observa Borges, são majoritariamente destinadas a investimentos. Ele lembra ainda que essa receita, em dez meses de 2025, já superou em termos reais igual rubrica de todo o ano de 2024, quando atingiu R$ 22 bilhões, o maior valor considerando a série anual desde 2018. "Ou seja, houve, até outubro, um crescimento em cima de um número já grande”, afirma.
Borges observa que o maior acesso a empréstimos dos governos estaduais é resultado da melhora significativa das notas de Capacidade de Pagamento (Capag) dos Estados no decorrer dos últimos anos. A Capag é uma espécie de nota de crédito do Tesouro Nacional e uma nota boa — A ou B — é requisito para que as operações de financiamento tenham garantia da União e, assim, fiquem mais baratas aos governos estaduais.
As notas, diz, refletiram principalmente a melhora nos indicadores de poupança corrente e liquidez dos Estados. Desde 2021, lembra Borges, pelo menos 70% dos Estados possuem Capag A ou B. Em 2025, foram 22% com notas C ou D e 78% com A ou B. Em 2020, mostra levantamento da Aequus, apenas 38% tinham A ou B, e os demais 62%, C ou D.
A melhora da Capag aconteceu pela convergência de fatores conjunturais, como o recebimento de receitas extraordinárias para o combate aos efeitos da pandemia de Covid-19, em 2020, as vedações temporárias a contratações e reajustes salariais, a redução de despesas em razão da paralisação de serviços e os efeitos inflacionários na arrecadação dos Estados.
Após a conquista de notas melhores, os governos estaduais, diz Borges, se esforçaram por manter suas Capags. “Eles não andaram para trás porque viram a oportunidade de realizar investimentos com base em operações de crédito com garantia da União. No vácuo de regras fiscais mais rígidas, a Capag acabou funcionando como um mecanismo de estímulo para os Estados manterem a sustentabilidade fiscal.”
Reprodução: Na Hora H


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